Psicoperspectivas. Individuo y Sociedad, Vol. 16, No. 1 (2017)

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doi: 10.5027/psicoperspectivas-Vol16-Issue1-fulltext-869
O trabalho como arte: Invenção e criação nos modos de trabalhar

Resumen

Este estudo discute o trabalho como arte e procura a visibilidade do conhecimento tácito, prático e estético produzido em contextos de trabalho. O pensamento de Foucault é o referencial teórico para produzir o trabalho de análise de jogos reais, a produção de resistência e de experiências éticas e estéticas. Utilizou-se a metodologia da intervenção fotográfica e está baseado em experiências de três grupos de trabalhadores: i) os desempregados e destinatários de bem-estar; ii) os associados à assistência jurídica universitária, e iii) aqueles pertencentes a uma equipe de atenção básica de saúde. Os estudos mostram a intervenção de diferentes modos de trabalhar em situações diversas, demonstrando que as artes e o trabalho podem ser exibidos como elementos importantes para os processos de subjetivação e da busca de provocação à potência inventiva do trabalho, gerando uma linha transversal entre as três situações estudadas.

Palabras Clave

fotografia, invenção e criação, modos de trabalho, trabalho como arte

Work as art: Invention and creation in different working modes

Abstract

This study discusses work as art and seeks the visibility of tacit, practical and aesthetic knowledge produced in work contexts. The theoretical reference to produce the analysis of work as games of truth, production of resistance and ethical and aesthetic experiences is Foucauldian thinking. This study uses the methodology of the photographic intervention and is based on the experiences of three groups of workers: i) unemployed and beneficiaries of social assistance; ii) those linked to an university legal aid service, and iii) employees belonging to a team of a primary health care service. The studies show the intervention of different ways of working in the different situations, showing that art and work can be shown as important elements in the processes of subjectivation and search to provoke the inventive power of work, creating a transversal line in the three situations studied.

Keywords

invention and creation, photography, ways of working, work as art

Recibido

13 mayo 2016

Aceptado

Cómo citar este artículo:

Tittoni, J., Dias, L. R. R, Trein, A. L. y Prudente, J. (2017). O trabalho como arte: Invenção e criação nos modos de trabalhar. Psicoperspectivas, 16(1), 117-131. Recuperado el 30 de Marzo de 2017 desde http://www.psicoperspectivas.cl

* Autor para correspondencia:

Jacqueline Tittoni. Universidade Federal do Rio Grande Do Sul, Porto Alegre, RS, Brasil. Correo de contacto: jatittoni@gmail.com

Este estudo situa-se no campo de problematizações do trabalho no capitalismo, ressaltando os jogos de poder, as resistências e as formas de dominação que se traduzem nas práticas cotidianas. Deste modo, aborda o trabalho como movimento que se realiza nas diferentes formas de produzir o viver e o sobreviver, nas linhas que vão tecendo certas tramas onde os modos de trabalhar vão sendo produzidos entre estratégias de dominação e de resistências. Para tanto, busca nas práticas cotidianas e tácitas, algo que se pode chamar de uma “arte no trabalhar”. Desde este ponto de vista, o trabalhar pode, em certas situações, mostrar-se singularizado em práticas inventivas, apesar das formas de dominação que definem linhas mais duras e pouco flexíveis nesta trama. Trata-se, assim, de buscar, nas micropolíticas cotidianas, os elementos macropolíticos que as configuram e evidenciar os modos como se particularizam e, até mesmo, singularizam. Esta perspectiva compõe um campo de problematizações que identifica o trabalho vivo e suas modulações nos modos de trabalhar, articulando formas de organização, gestão e processos de trabalho nas experiências cotidianas de trabalhadores e trabalhadoras (Armijo, 2016; Leiva, & Campos, 2013; Leiva, & Ross, 2016; Szlechter, 2010).

A análise das práticas tácitas e cotidianas coloca uma série de questões metodológicas que tomam relevância, pois desafiam pesquisadores e pesquisadoras a problematizar os jogos de verdade que produzem os próprios saberes científicos. Em outras palavras, indicam que o conhecimento científico se produz, também ele, em jogos de verdade e legitimação, que precisam ser enfrentados quando da análise das práticas cotidianas. Sendo assim, coloca-se em questão, também, os modos de trabalhar de pesquisadores e pesquisadoras.

Partimos do pressuposto de que as práticas cotidianas e tácitas, ainda que fundamentais, são invizibilizadas -e mesmo, desvalorizadas- pela racionalidade técnica e administrativa que organiza e legitima os modos adequados de trabalhar. Para enfrentar estas formas de invisibilização, recorremos ao recurso metodológico da produção de imagens e, sobretudo, de imagens fotográficas, de modo a articular imagens e linhas de visibilidade que indicam modos de trabalhar ligados a práticas cotidianas e tácitas. Esta estratégia busca, justamente, permitir outras outras visibilidades, produzir e legitimar outros olhares sobre o trabalho. Justamente aí, a perspectiva da produção de imagens fotográficas pode incidir sobre os jogos de verdade que configuram o trabalho, tornando mais visíveis as “artes de trabalhar”. Estudos sobre fotografia têm procurado romper com a dicotomia ciência-arte, demonstrando que pesquisa e arte podem estar entrelaçadas. Partindo desta forma de pesquisar, a fotografia possibilita processos de reflexão sobre os modos de trabalhar e de viver, através da problematização das linhas de visibilidade, trazidas pelo olhar de trabalhadores e trabalhadoras (Beyes, & Steyaert, 2011; Desyllas, 2014; Holgate, Keles, & Kumarappan, 2012; Russell, & Diaz, 2013).

Neste artigo, faremos essa discussão através de três estudos: com trabalhadores desempregados e usuários das políticas de assistência social, trabalhadores da atenção básica em saúde e trabalhadores voluntários -profissionais e estudantes- do Serviço de Assessoria Jurídica da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (SAJU-UFRGS). Estes estudos têm em comum problematizar o trabalho nos jogos de verdade que definem linhas de visibilidade e invisibilidade que permitem identificar e reconhecer os saberes cotidianos e tácitos nos contextos de trabalho. O objetivo deste artigo é identificar e reconhecer as “artes de trabalhar”, através da problematização das linhas de visibilidade que permitem ver e reconhecer os modos de trabalhar e as configurações do trabalho nestes diferentes campos de pesquisa. Estes diferentes contextos de pesquisa ainda tem em comum situarem-se no âmbito da implementação de políticas públicas na saúde, na assistência social e na assistência jurídica, tendo relação direta com trabalhadores e usuários destas políticas. Deste modo, também identifica formas de trabalhar ligadas às relações pessoais, à educação, à informação e ao acesso aos direitos sociais, sendo um trabalho marcado pela imaterialidade, pelos afetos e pelas modulações subjetivas, que podem se recriar e, até mesmo, se reinventar nas práticas cotidianas. Também importante ressaltar que se trata de um trabalho fortemente atingido pelas práticas neoliberais contemporâneas, que produz efeitos de privatização, precarização e de desvalorização do trabalho e dos trabalhadores e trabalhadoras em questão. Nesse quadro de precarização do trabalho nas políticas públicas, esses estudos indicam as “artes de trabalhar” que, apesar de inúmeras dificuldades, podem sustentar estratégias de resistência, bem como de luta pela visibilidade e reconhecimento desse trabalhar.

 

Sobre trabalho: Pontos de vista

O trabalho contemporâneo tem sido problematizado por vários estudos. Castel (1998) que discute as fragilidades da sociedade salarial e a produção dos desfiliados e supranumerários em um mercado que não pode abranger a própria força de  trabalho que  produz.  Lazzarato e Negri (2001), que discutem o trabalho imaterial no contexto da economia pós-industrial, ressaltando a relação produção-consumo que o trabalho imaterial ativa e organiza. Schwartz (2010) trata as modificações do trabalho como algo inerente à sua natureza, sendo importante pensar nos modos como ele sempre é apreendido na sua mudança, de forma a garantir a continuidade do modo capitalista de produção. Gherardi (2006, 2009a, 2009b, 2012) problematiza a questão do trabalho, discutindo clima organizacional e a aprendizagem prática dos trabalhadores no próprio processo laboral, enfocando as micro e macro práticas. Sob diferentes enfoques, estes estudos dão relevância aos movimentos, tensões e agenciamentos que se produzem no âmbito do trabalho, de modo a definir tais continuidades e rupturas. Assim, a abordagem do trabalho, para além do plano da descrição das condições e organização do trabalho, privilegia as experiências, os modos de trabalhar, o cotidiano e as práticas cotidianas, os modos de configuração do poder e seus efeitos de subjetivação e de institucionalização.

Partindo da leitura foucaultiana de modo a pensar o trabalho como instituição histórica e o trabalhador como sujeito ético-estético que se produz nas tramas que configuram as experiências de trabalho, pensaremos o trabalho na discussão que o conecta com o tema da produção da subjetividade.

Desta forma, poderemos pensar o trabalho como jogos de verdade (Foucault, 1999), onde os diferentes saberes neste produzidos concorrem para a legitimação, definindo verdades que organizam as experiências dos trabalhadores.

Considerando com o autor, que a subjetividade é o modo como o sujeito faz a experiência de si mesmo nos jogos de verdade (Foucault, 1999), podemos pensar que os jogos de verdade e as experiências são fatores cruciais na problematização deste sujeito. Como jogos de verdade consideramos os modos como o trabalho se organiza no capitalismo, tomando os tensionamentos das relações entre o Capital e o Trabalho como fator central nas análises das configurações contemporâneas do trabalho.

Estas relações desdobram-se em múltiplas configurações micropolíticas que envolvem as condições particulares das experiências e dos sujeitos envolvidos, tornando importante estabelecer conexões entre as macropolíticas e as particularidades dos planos micropolíticos onde se realizam. Desde este ponto de vista, o trabalho capitalista poderá ter muitas faces, motrando-se, por vezes, como criador de tecnologias importantes para a vida saudável do planeta e, por vezes, como fonte de importante exploração e dominação levando, até mesmo, à manutenção do trabalho escravo.

Esse caráter micropolítico, que indica apenas um ponto de vista e não um critério de hierarquização, é priorizado na presente análise de modo a buscar os modos como a potência inventiva do trabalho pode ser invisibilizada pelas lógicas da organização e do processo de trabalho mais evidentes e legitimadas. De certa forma, fomos buscar nas experiências cotidianas a potência da experiência do trabalhador para dar visibilidade a um fator importante na análise da exploração do trabalho: a deslegitimação e desqualificação das experiências dos próprios trabalhadores, produzidas no ato de trabalhar e nos cotidianos de trabalho. Esta deslegitimação que se formaliza claramente nos modelos tayloristas/fordistas se modifica, mas mostra-se, ainda, como uma estratégia importante de dominação.

De uma certa racionalidade que, simplificadamente, poderemos chamar de “intelectual”, poderemos pensar em uma experiência que desqualifica os próprios afetos e sentimentos do trabalhador, de modo a gerar modos prescritivos ligados às experiências subjetivas. Esta perspectiva integra os estudos propostos por Martins (2008), que busca o que chama do “olhar do insignificante” de De Certeau (2001), na forma do que chama as “prática anônimas” e as “artes do fazer” e dos diferentes estudos que, com informações de campos de pesquisa, puderam pensar os aspectos tácitos do trabalho como os de Sato (2007) e Antunes (2005), somente para citar alguns.

Ao que parece, os pontos de conexão entre os diferentes elementos, definem as configurações do trabalho e dos trabalhos em análise, lançando problematizações que dizem respeito aos pontos de conectividade e, não exclusivamente, à descrição e análise dos processos e condições de trabalho. Estas conectividades, que identificam os agenciamentos, podem implicar em linhas mais duras e legitimadas de organização do trabalho e elementos mais flexíveis, que indicam as resistências, as insubordinações e as invenções possíveis e, por vezes, necessárias à realização do trabalho.

Ao colocar em questão elementos múltiplos e distintos, se faz importante considerar não só a identificação destes elementos, mas os modos como estão relacionados e conectados nas diferentes situações em análise. Assim, seriam as conexões que poderiam indicar os movimentos que configuram o trabalho como algo vivo, capaz de reinventar-se a si próprio nas tramas que o constituem. Através das conexões, diferentes sensibilidades são acionadas, desveladas e provocadas a criar-se como resistência em contextos de racionalidade e de colonização dos afetos. Martins (2008, p. 170) faz uma importante distinção entre artesanato tradicional e artesanato industrial, indicando que este último surge das necessidades e dificuldades do processo de trabalho e não da necessidade do trabalhador.

Ao analisar uma situação fabril que chama a “aparição do demônio na fábrica”, mostra os processos que envolvem a captura dos saberes dos trabalhadores pela racionalidade técnica do trabalho e os modos como as resistências se agenciam nestas situações. O autor evoca a discussão do trabalho alienado marxista (Marx, 2011) de modo a pensar como, neste processo a riqueza “é a negação da humanidade do homem que a produz, que na produção se descobre em antagonismo com sua obra, sua obra rebelada contra ele, contraposta e oposta a ele, fazendo-o instrumento dela” (Martins, 2008, p. 174). A forma como o autor traz a noção de alienação, como a obra em antagonismo com seu artista, indica um tensionamento importante do ponto de vista da potência inventiva do trabalho, a saber, os modos como a própria potência inventiva pode voltar-se contra o próprio trabalhador. Pode-se pensar, por exemplo, nos modos de institucionalização do ócio e da criatividade como elementos geradores de produtividade no trabalho.

O trabalho, desde este ponto de vista, estará ligado aos agenciamentos das condições do viver e do sobreviver, de modo a pensar-se como movimento, como estratégia de transformação e como resistência. Abordar o trabalho na produção dos modos de vida e de viver implica analisá-lo, também, desde seu caráter ético, estético e político, ou seja, como elemento fundamental na análise dos processos históricos, não só pela referência sócio-econômica, mas pelos estilos de viver e de se posicionar na vida que ele agencia. Tal aspecto não significa negligenciar os aspectos sócio-econômicos ligados ao trabalho, sobretudo no que diz respeito aos tensionamentos colocados pela relação Capital e Trabalho, tal qual proposto no pensamento marxista. Significa que os tensionamentos aí produzidos, extrapolam as esferas do trabalho e inscrevem-se na vida e nos modos de viver.

Canguilhem (1995, p. 159) nos aponta que “a vida não é, portanto, para o ser vivo, uma dedução monótona, um movimento retilíneo: ela ignora a rigidez geométrica, ela é debate ou explicação com um meio em que há fugas, vazios, esquivamentos e resistências inesperadas.” O trabalho, pensado como formas de agenciamento que produzem modos de vida e de viver, estará nesta relação de movimento, de fuga e de resistência aos modos rígidos de organizá-la e defini-la. Provocar a potência inventiva do trabalho é, de certa forma, aventurar-se nos acontecimentos, devires e infidelidades do meio (Canguilhem, 1995), assim como transgredir, de certo modo, as formas mais rígidas e individualizadas de produzir, ligadas aos modos capitalistas de viver e de produzir.

 

Alguns apontamentos sobre os modos de trabalhar dos pesquisadores

O artigo apresenta experimentações metodológicas no contexto de pesquisas sobre o trabalho em diferentes políticas públicas, na tensão entre micro e macropolíticas, priorizando a abordagem do espaço micropolítico e cotidiano das práticas laborais.

Ao tratarmos de jogos de verdade e linhas de visibilidade-invisibilidade, utilizamos estratégias metodológicas que fazem uso das imagens como estratégia para tensionar estas linhas, fazendo emergir visibilidades menos institucionalizadas, legitimadas e-ou valorizadas, assim como para provocar a potência inventiva dos próprios trabalhadores, quando de sua participação nos processos de pesquisa.

Para tanto, tomamos como referência os pressupostos da pesquisa-intervenção (Aguiar, & Rocha, 2007). Essa modalidade de pesquisa é uma importante estratégia de estudo na psicologia social brasileira que se compôs através da herança das pesquisas participativas (pesquisa-ação e pesquisa participante) (Aguiar, & Rocha, 2007), convocada pelos fatos histórico-políticos de repressão das décadas de 60, 70 e início dos anos 80. Nesse contexto emerge um campo de estudos que demonstra que a neutralidade em pesquisa não existe e que a presença do pesquisador é importante na mudança da realidade social. A palavra intervenção, no contexto da pesquisa-intervenção, demarca uma postura e uma intenção que é a de pesquisar com, em um processo onde, através da pesquisa, transformam-se tanto a pesquisadora, os sujeitos de pesquisa, bem como o próprio contexto do qual ativamente participam. A intervenção, portanto, está relacionada à criação de estratégias que possam tensionar as linhas mais duras e institucionalizadas que compõem os processos do pesquisar. Trata-se de uma visão de construção conjunta de conhecimentos que discute a realidade como algo unívoco e instiga as multiplicidades de visões, falas e atos que constituem olhares, dizeres e fazeres em um processo agonístico. A partir de tais pressupostos é que se define a proposta de intervenções fotográficas (Tittoni, 2009; Zanella, & Tittoni, 2011), para constituir uma maneira de pesquisar que se utiliza da fotografia como uma forma de intervenção nas linhas de visibilidade-invisibilidade das experiências cotidianas de trabalho.

Desta forma, não utilizamos a fotografia como “ilustração”, ressaltando o seu caráter de “prova” e de representação da realidade, mas, ela mesma, como uma produção. Assim, o processo de pesquisa envolve, em linhas gerais, o acompanhamento do grupo, oficinas de fotografia e a configuração de exposições fotográficas, que colocam em questão os elementos do trabalho que podem-desejam ser expostos para os demais trabalhadores e para o público em geral. Esta perspectiva está inspirada na proposição de Barthes (2000, p.20), que toma a fotografia como tendo três momentos: fazer, suportar e olhar. De um modo geral, nos processos de pesquisar, organiza-se um processo de acompanhamento dos grupos de trabalhadores, com observação dos cotidianos de trabalho, participação em reuniões e encontros de trabalho, bem como, conversas sobre os modos de trabalhar. Deste acompanhamento e da problematização específica do trabalhar naquele contexto, poderão emergir os temas a serem fotografados. Neste caso, as imagens podem mostrar-se nas falas, como metáforas, ou mesmo como recriação de certas cenas cotidianas, somente para citar algumas situações onde tensionamento de linhas de visibilidades podem emergir. Assim, é da discussão sobre o trabalho e seus visíveis, que as imagens passam a tomar lugar no texto e nas falas. Também tomam lugar como produção coletiva, que se dá no encontro de opiniões, de ideias e de imagens sobre o trabalho e os modos de trabalhar.

Estes procedimentos gerais sempre são particulares em razão dos agenciamentos específicos das situações e coletivos de trabalhadores. Ainda que traçados em linhas gerais, definem seus contornos nas experiências de pesquisa e nos encontros entre pesquisadores e trabalhadores. O processo do pesquisar prevê a realização de fotografias pelos próprios trabalhadores, com o tema do trabalho e envolve conexões entre trabalhadores, pesquisadores, equipamentos e contextos de produção das imagens. Tratamos, assim, com o que Samain (2005) chama de fotográfico, ou que Dubois (2005) chama de ato fotográfico, para além das imagens produzidas. Em algumas situações prevalecem o uso dos equipamentos como tensionador das linhas de visibilidade e poderemos pensar em técnicas artesanais de produção de fotografias, como pin-holes– câmeras fotográficas feitas de material descartável. Em outras situações serão as imagens que provocarão tensionamentos através do que elas podem carrear em termos de reflexões ou de impactos nos modos de pensar o trabalho. Em outras situações, ainda, poderão ser os fotógrafos e a posição de quem discute e produz imagens sobre o trabalho a provocá-los. Ou seja, serão as conexões que poderão definir os modos de trabalhar do pesquisador. Na continuidade, discutiremos três experiências de pesquisa que poderão exemplificar a discussão metodológica proposta em nossos estudos.

 

Experiências no pesquisar: Algumas passagens

Os trabalhadores da atenção básica em saúde

O território da intervenção de uma pesquisa (Prudente, 2012) junto aos trabalhadores da saúde foi o Ambulatório Básico do Centro de Saúde Vila dos Comerciários, que está localizado no Distrito de Saúde Glória/Cruzeiro/Cristal, no município de Porto Alegre, Rio Grande do Sul. A equipe do local trabalhava dividida entre dois espaços físicos diferentes e distantes (chamados de área 8 e área 10) e a gestão do trabalho, no momento da pesquisa, era realizada por uma mesma coordenação para estas duas unidades, realizada por uma enfermeira.

O estudo foi direcionado para a equipe de trabalhadores da área 8 do Ambulatório, constituída pelos seguintes profissionais: médicos pediatras; enfermeiras; nutricionistas; técnicos de enfermagem; auxiliares de enfermagem, totalizando vinte trabalhadores. Além destes trabalhadores, o local recebia estagiários e residentes de cursos da área da saúde, os quais realizavam experiências de curto período, não sendo possível precisar o número. Aproximadamente vinte e três pessoas destas categorias profissionais participaram da pesquisa, de forma alternada e variável nos encontros.

As pesquisadoras acompanharam esta equipe durante um ano, semanalmente, de modo a participar dos processos e discussões sobre o trabalho, utilizando a pesquisa-intervenção e a intervenção fotográfica como perspectivas e as oficinas de fotografia e o diário de campo como estratégias metodológicas. As condições de possibilidade deste campo, elementos importantes em um referencial teórico foucaultiano, são fundamentais para pensar nas produções e efeitos da pesquisa.

No momento da pesquisa, a política de saúde do município passava por uma “pressão” para que os serviços de saúde da Atenção Básica se transformassem em Estratégia de Saúde da Família, o que implicaria drásticas mudanças nos modelos de atenção e cuidado e na gestão do trabalho. Além disso, a equipe era constituída por profissionais com diferentes vínculos empregatícios: funcionários públicos federais, estaduais e municipais, contratos emergenciais e celetistas, o que gerava fragmentação entre os trabalhadores e desmobilizava o grupo, pois as reivindicações não eram as mesmas.

Neste período houve a greve dos trabalhadores da saúde do município em função da reivindicação da jornada de 30 horas. Além disso, houve a implantação do ponto eletrônico com reforço das ações de controle sobre as atividades dos trabalhadores e uma reforma no espaço físico do Ambulatório, sendo que o trabalho era constante.

Estas condições são importantes para pensar no que foi possível produzir em um momento de tensões e mudanças políticas e institucionais, delineadas por uma fragmentação da equipe, um processo de trabalho centrado em procedimentos e produtividade e uma implicação individualista com o trabalho. O modo de acompanhar a equipe foi se desenvolvendo a cada dia, a cada encontro, nas conversas, registros, reuniões e campanhas de saúde. O diário de campo e a câmera fotográfica foram sendo usados pelos pesquisadores como intervenções constituintes do processo, potencializado as problematizações.

Foram propostas oficinas de fotografia junto aos trabalhadores, na forma de um convite para pensar/fotografar o trabalho. Como as equipes do turno da manhã e da tarde eram compostas por diferentes sujeitos, houve dois processos diferentes de oficinas, cada um com aproximadamente oito encontros. Inicialmente os trabalhadores, em cada turno, participaram de oficinas de sensibilização, discutindo visibilidades e invisibilidades do trabalho. Depois, em outras oficinas, foram convidados a fotografar práticas/afetos/processos, de modo aleatório e livre, sem sugestões de temáticas e assuntos.

As oficinas de fotografia constituíram um modo de convocar os trabalhadores, em um contexto conturbado e fragmentado, a construir um olhar sobre o trabalho. Esses momentos também foram fragmentados e individualizados, com as pessoas entrando e saindo, atendendo usuários, com o barulho da reforma, do modo que foi possível. A emergência de novas reflexões sobre o trabalho foi um efeito da produção de imagens, pois esta deslocou linhas de visibilidade e dizibilidade hegemônicas e naturalizadas neste espaço laboral, convocando transformações. Esse deslocamento pode ser visto no seguinte excerto da dissertação (Prudente, 2012, p. 127):

Eles perceberam que essa fotografia era do vaso de folhagem da entrada do posto quando viram o vaso em outra fotografia, que mostra um ponto de vista ampliado em relação à primeira. Nesse momento, um médico entrou na sala, viu todas as fotografias sobre a mesa e perguntou o que era aquilo. Os trabalhadores responderam que eram fotografias sobre o trabalho, que fazia parte de uma pesquisa. Ele viu essas duas fotografias que estavam sendo comentadas e disse: “Essa coisa rosa ali no vaso é um cartão de agendamento de vacina rasgado. Eles (usuários) rasgam tudo aqui”. Eu disse que não tinha percebido esse detalhe. Ele foi saindo da sala e disse (estalando os dedos): “Viu só? Não basta ver, tem que olhar”. Os trabalhadores comentaram que quando os cartões eram de madeira, pintados e “bonitinhos”, os usuários levavam para casa. E que os cartões feitos de outros materiais os usuários rasgam (esses cartões cor-de-rosa). Fiquei pensando que quando o trabalho é resolutivo, efetivo, os trabalhadores não podem ver o efeito, pois o usuário não volta (deixa a ficha “bonita” em casa), o efeito não é visível. O que os trabalhadores percebem de efeito é o que fica mais próximo deles, mais visível; neste caso uma certa “indignação” visibilizada pela ficha rasgada’ (Fragmento do Diário de Campo, p. 24).

Por fim, as últimas oficinas foram momentos de ver as produções fotográficas e conversar e pensar sobre as imagens e as relações com o trabalho, culminando em uma exposição fotográfica proposta pelos trabalhadores, composta pelas fotografias que eles escolheram. As fotografias que seguem foram produzidas ao longo das oficinas, pelos trabalhadores das equipes da manhã, da tarde e pelos pesquisadores, em diferentes momentos, algumas das quais foram escolhidas para a exposição.

De qualquer modo, a pesquisa insistiu em provocar e buscar alguma possibilidade de invenção e criação neste campo de produções áridas, difíceis e fragmentadas. E é interessante pensar que uma forma de agregar as pessoas e convocá-las para uma atividade de compartilhamento e produção do grupo foi o momento de mostrar as fotografias produzidas. As fotografias deram a ver regularidades do trabalho: espaços vazios, materiais de trabalho, paredes mofadas, utensílios, materiais descartáveis, entre outras coisas. Mesmo que as fotografias tenham sido produzidas em momentos diferentes e de modo bastante individualizado, os trabalhadores foram reconhecendo nelas seu próprio trabalho e já não sabiam dizer quem havia produzido qual foto (Figura1).

Figura 1
Fotografias da equipe da Área 8
Fonte: Oficina de Fotografia Área 8

A fotografia permitiu um modo de coletivizar a experiência do trabalho tão marcada pela individualização das práticas, pois, para fotografar, olhar e conversar sobre as produções era preciso um tempo, mesmo que individual, mas um tempo para se relacionar com estas produções. Os trabalhadores escolheram mostrar as fotos produzidas, em uma exposição, pois queriam sensibilizar os usuários e outros profissionais sobre o trabalho feito ali (Figura 2). As fotografias constituíram um modo de denunciar as condições de trabalho e mostrar os “vazios” que os processos de transformação do trabalho estavam provocando. Eram, de certa forma, a imagem da transformação do trabalho daquela equipe, o temor pela manutenção do descaso com as condições de trabalho e a falta de expectativas com os novos modos de trabalhar que se anunciavam.

Figura 2
Exposição
Fonte: Oficina de Fotografia Área 8

Uma última intervenção da pesquisa foi escolher molduras coloridas para cada foto, sendo que muitas das cores eram a que estavam presentes de um modo discreto na própria fotografia. Os trabalhadores de cada turno escolheram as fotografias que gostariam de expor, e este constituiu o momento de maior produção coletiva da pesquisa. Intervimos também na cor, no jeito de apresentar as fotografias, como um modo de potencializar o olhar sobre o trabalho. Talvez a invenção nesta aridez trazida nas imagens foi a de produzir um tempo de olhar e provocar a coragem de olhar para o que se mostrava com tanta aridez e desamparo. A exposição fotográfica buscou as cores, mesmo que escondida nos detalhes.

 

Os trabalhadores do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária (SAJU)
Formação, gênero e interdisciplinaridade

O estudo no campo jurídico (Dias, 2011) ocorreu com os trabalhadores de um dos grupos de assistência e assessoria jurídica do Serviço de Assessoria Jurídica Universitária da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (SAJU-UFRGS).

Na época do estudo, entre 2009 e 2010, o grupo era composto por um advogado e duas advogadas, cinco assistentes (estudantes de direito que realizam o trabalho junto aos advogados), uma monitora e um monitor (estudantes escolhidos pelo grupo para coordená-lo, mas que também desempenham o trabalho de assistentes), um estudante de psicologia bolsista de iniciação científica, uma estudante de ciências sociais, um psicólogo e uma psicóloga-pesquisadora.

Além do grupo ter sido acompanhado em suas reuniões semanais, bem como em suas atividades junto à comunidade, foram realizadas oficinas de fotografia que abarcaram a sensibilização em relação à imagens, a discussão e a escolha da temática a ser fotografada e a discussão das imagens produzidas pelos próprios trabalhadores. As discussões a respeito da temática a ser fotografada, que foi o processo do grupo, propiciaram a análise de três importantes “fluxos”, envolvidos nos processos de subjetivação dos trabalhadores deste coletivo, visibilizados através das imagens. São tratados como fluxos, pois, indicam movimentos do grupo. São estes: a tensão assistência e assessoria jurídica, gênero enquanto uma categoria dinâmica e interdisciplinaridade.

O fluxo de tensão entre a assessoria e a assistência jurídica colocou em questão a dicotomia entre assistência jurídica e assessoria jurídica em função da crítica de que a assistência estaria imbuída de pressupostos paternalistas e assistencialistas advindos de uma prática individualista moldada nos pressupostos liberais, enquanto que a assessoria, por suas referências trazidas da sociologia crítica e do pensamento de Paulo Freire estaria situada em uma prática de emancipação social das classes desprivilegiadas (Luz, 2008).

As imagens por eles produzidas, vistas e faladas evidenciaram a tensão assessoria/assistência, possibilitando a emergência das visibilidades relacionadas à critica da assistência jurídica como parte de um código normativo positivista, tradicional, herdado “de nossos pais” e que não leva em consideração questões que não estejam afeitas ao racionalismo como na “análise do amor” (Figura 3). Os trabalhadores visibilizam e criticam o código que não vê seus limites colocados pelas complexas relações humanas e pelas tensões sociais significadas pelas pernas de pessoas atrás do livro intitulado “os limites da lei” (Figura 4). A crítica recai, ainda, sobre as práticas de distanciamento e submissão intelectual daquele que atende sobre aquele que é atendido, visibilizadas na cadeira preta, estofada e “melhor e mais bonita” que a cadeira simples de madeira em posição inferior, mais baixa que a outra (Figura 5). Ao postularem estas críticas os trabalhadores procuram transladar os princípios da assessoria jurídica para a assistência jurídica, rompendo com a lógica individualista e paternalista ao operar com a noção de sujeito e ao apoiar-se em uma orientação política de fortalecimento de grupos sub-representados.

O fluxo gênero evidencia uma categoria que se encontra em constante movimento, perpassando as noções implicadas na primeira e segunda onda do feminismo até a noção contemporânea de gênero que se afasta de uma ideia essencialista; enfatiza o caráter social e relacional das definições normativas e traz a ideia de identidade enquanto algo plural, múltiplo e até contraditório (Butler, 2003), que se coloca como uma potência que provoca os modos institucionalizados de pensar a vida, as relações, os modos de produzir conhecimento e trabalhar. A categoria gênero tensiona as práticas identitárias ligadas ao trabalho, evidencia as heteronormatividades presentes na vida dos trabalhadores através da literatura juvenil (Figura 6), das normativas de feminilidade ligadas à beleza (Figura 7) e da presença destas no ambiente de trabalho (Figura 8), bem como as violências decorrentes de uma normatização de gênero (Figura 9 e Figura 10) às quais o grupo opera resistências (Figura 11).

Figura 6
Literatura juvenil
Fonte: Oficina de Fotografia do SAJU

A produção e discussão sobre as fotografias propiciam, inclusive que os trabalhadores se coloquem em questão, como aponta o seguinte diálogo, na oficina de fotografia, sobre a Fotografia 7, que mostra a imagem de uma das trabalhadoras quando criança e outra com quinze anos de idade:

Luiza: ‘Porque tu pensou nisso das idades diferentes?’
Júlia: ‘Porque foi uma coisa que foi construindo, que eu não tinha. Quando era menor não me preocupava, saia de casa de qualquer jeito e depois fui criando uma preocupação com a questão estética. Quando pequenininha estou de vestido…’
Luiza: ‘Tu não te preocupava, mas alguém se preocupava…’
Ágata: ‘Uma continuidade nessa preocupação… […]’
Luiza: ‘Legal isso, porque fala de uma preocupação que não é da gente inicialmente, mas isso vai formando até chegar no ponto em que acaba sendo (da gente–mulheres).’
(Dias, 2011, p. 119).

O fluxo interdisciplinaridade evidencia o trânsito dos trabalhadores pelas linguagens próprias de cada disciplina (Direito, psicologia e ciências sociais), enquanto um processo de resistência às regulações dos discursos que proliferam procedimentos de exclusão (Foucault, 2007). O fluxo interdisciplinaridade evidencia ainda uma prática compartilhada, coletiva, que se dá através de uma horizontalização das decisões, bem como de ações que deslocam os trabalhadores dos papéis que seriam esperados dentro de cada disciplina, como na situação em que uma advogada é escolhida para fazer o acompanhamento de uma moradora de rua, com diagnóstico de psicose, em função do vínculo que estabelece com a mesma (atuação esta normalmente esperada do psicólogo). O deslocamento das práticas disciplinares implica ainda a ruptura com disposições espaciais disciplinares (Foucault, 2009), tradicionais na assistência jurídica (advogado atrás de uma mesa atendendo a pessoa assistida), para uma espacialidade circular em que advogado, assistente e psicólogo ou estudante de psicologia atendem conjuntamente a pessoa em uma disposição de cadeiras (sem mesa) em círculo. Este deslocamento aparece, ainda, na reflexão sobre o disciplinamento implicado em questões administrativas como lista de presenças, certificados, bem como, regulamentações sobre a sucessão de monitores. O fluxo interdisciplinaridade visibiliza um afrouxamento, fraturas nos mecanismos disciplinares.

A análise do fluxo interdisciplinaridade evidencia, então, as experiências interdisciplinares e o impacto das situações de violência trazidas pelos usuários que, na maioria das vezes, implicava em experiências afetivas que necessitavam outros recursos além dos conhecimentos técnicos jurídicos. As narrativas fotográficas mostraram estratégias de invenção de modos de trabalhar que produziram efeito nos modos de atendimento dos usuários (que passou a ser realizado por uma equipe de profissionais e estudantes de psicologia, ciências sociais e direito), bem como na criação de espaços de troca entre os componentes do grupo sobre as situações acompanhadas, onde afetos e impactos das experiências com os usuários puderam ser traduzidas em novos modos de trabalhar e de realizar assessoria e assistência.

 

Os trabalhadores desempregados: A “incapacidade” e sua desconstrução

A intervenção fotográfica ligada a usuários da política de assistência social foi realizada a propósito de uma dissertação de mestrado (Trein, 2012) em um Centro de Referência de Assistência Social (CRAS) de um município da região metropolitana de Porto Alegre, no Estado do Rio Grande do Sul. As pesquisadoras iniciaram o acompanhamento desses usuários em julho de 2011, finalizando em março de 2012.

Os dezesseis usuários, que participavam de um grupo de formação oferecido pela prefeitura municipal e coordenado por um educador social do CRAS, encontravam-se semanalmente para debater diversos temas ligados ao trabalho e à cidadania. Entre as temáticas estavam as situações de moradia, água e saneamento, aspectos do bairro, participação em conferências e outros espaços de debate para os usuários, tipos de trabalho e emprego, lógica de assujeitamento à modalidade de trabalho assalariado (CLT), alienação do trabalho, preparação para o mercado de trabalho, atividades de cooperativa, crédito e confiança, visitas às casas dos beneficiários e à horta comunitária, transversalidade das políticas, atraso ou outros complicadores no pagamento do benefício, eleições e a relação com representantes governamentais, agressões domésticas, ameaças, dívidas, vida, saúde, doença, fé, relação entre os vizinhos, entre outros. Muitos destes temas surgiram pelas próprias situações que os beneficiários traziam ao grupo ou por intervenção das pesquisadoras.

O objetivo da pesquisa era tensionar as linhas de visibilidade e invisibilidade operantes no grupo, considerando-se a relação dos usuários com o trabalho e a autonomia dentro do seu contexto de beneficiários da política de assistência social. Para tanto, ao longo do acompanhamento desse grupo, foi utilizado o recurso da fotografia em diferentes modalidades: produção, debates e narrativas, pintura e exposição de imagens.

Na produção de fotografias, cada usuário recebeu uma máquina fotográfica analógica com um filme de 30 poses coloridas e o convite de registrar aquilo que lhe era importante. A maioria fotografou sua família, sua casa, pátio, plantas, animais, seus afazeres diários, sua rotina de consultas de saúde, festas de família, entre outras produções. Ao colocarmos todas as imagens juntas, lado a lado, foi possível perceber sua semelhança e também problematizar seus sentidos para o grupo. Estas imagens, no entanto, foram tomadas muito mais como um registro das situações cotidianas e dos familiares, sendo que havia várias fotos de pessoas da família. O argumento que sustentou a produção destas imagens, foi a dificuldade de acesso ao recurso fotográfico e a oportunidade trazida pela pesquisa. Neste caso, acabou por chamar atenção as fotografias feitas pela pesquisadora quando das caminhadas pelo território e visitas domiciliares em conjunto com o grupo. Nestas caminhadas, o grupo ia fotografando, mas com menos intensidade. Chamou a atenção o fato de que parecia existir uma certa indisposição para fotografar os elementos da vida cotidiana: carroças para carregar resíduos, animais domésticos, as casas onde moravam. A família, sem dúvida, mostrava, mais do que tudo, a beleza de suas vidas. Esta situação precisava ser enfrentada com a sensibilidade e a delicadeza com que nos era trazida nos encontros do grupo, de forma silenciosa e, por vezes, confusa e complexa. Foi então, que o interesse pelas fotografias em “preto e branco”, permitiram uma intervenção que dissesse de uma possibilidade de “colorir” e tratar as imagens de uma outra forma. A oficina de pintura das fotografias foi realizada a partir das cópias das fotografias, em papel fotográfico, 20 cm por 30 cm. de tamanho. Estas fotografias pintadas, foram novamente fotografadas e ampliadas para a exposição. Para a pintura das fotografias foram usadas tintas têmpera, criando um efeito de textura muito interessante nas imagens (Figuras 12, 13, e 14).

Primeiramente as próprias imagens em preto e branco provocaram um certo estranhamento nos usuários, uma vez que os fez encontrar seus domicílios e arredores sob outras perspectivas, sendo que, muitas vezes, acabavam não identificando do que e de onde se tratava na imagem. O jogo que se deu entre os diferentes olhares e a possibilidade de novas leituras sobre uma mesma imagem foi um dos aspectos inventivos de produção dos usuários no contexto da pesquisa.

Quando questionados sobre o que gostariam de mostrar e para quem, os usuários selecionaram algumas imagens dentre todas as produzidas e manipuladas, reivindicando um encontro com o prefeito do município para mostrá-las. Esse encontro de fato ocorreu e provocou elementos interessantes que depois foram criticamente analisados pelos usuários. Dentre muitos elementos, um ficou bastante evidente: o de uma produção diferente vinda dos usuários, normalmente concebidos como “incapazes” frente à política de assistência.

Ser usuário da política de assistência social e ao mesmo tempo ser considerado trabalhador foi uma questão amplamente debatida no grupo. Principalmente quando se está inserido em um jogo de verdade que só legitima o usuário como tal quando esse se confessa improdutivo para ter acesso efetivo ao direito de assistência. Nesse sentido, também oficinas de trabalho em argila puderam visibilizar produções relacionadas ao cotidiano dos usuários, tais como panelas, potes, carroças e animais. Tal intervenção operou diretamente nas artes de trabalhar dos usuários, provocando um deslocamento com relação à sua inquietação de “nada fazer” durante os encontros do grupo.

O resultado dessas intervenções foi muito relevante para a discussão da visibilidade sobre trabalho e autonomia: enquanto as produções possíveis não são visibilizadas e, portanto, reconhecidas como verdadeiras pelo campo de relações dos usuários, não é possível que usuários se sintam autônomos e produtores de si. Foi preciso tornar visível uma certa arte de trabalhar para se poder iniciar um deslocamento do que é trabalho inventivo dentro do contexto da política de assistência. Isso significa que, quando outros elementos são apontados para se pensar nessa discussão, legitima-se uma ampliação necessária do jogo de verdade sobre o que é trabalho, produção, capacidade, autonomia, entre outros. Significa olhar e reconhecer aquilo que se faz como uma produção legítima dos modos de ver e de viver.

 

Algumas considerações, para finalizar

Os processos de pesquisa que fazem parte desta exposição foram enfocados a partir da discussão da potência inventiva do trabalho. As experiências mostram que os processos, as condições e a organização do trabalho figuram como elementos fundamentais para análise das potências inventivas no trabalho. Em razão de configurarem, de diferentes formas, os contextos de trabalho, seus agenciamentos podem provocar ou estagnar as potências inventivas e as diferentes formas de resistência dos trabalhadores.

A expressão “trabalho como arte” está definida a partir da noção de arte como potência de criação, reinvenção de sentidos e produção de algo que não está pré-definido. Para Jiménez (1999, p. 10) “el arte significa asimismo una manera de representar el mundo, de configurar un universo simbolico ligado a nuestra sensibilidad, a nuestra intuición, a nuestra ficción, a nuestras fantasías”.

Desta forma, ao pensarmos na arte, tomamos as sensibilidades como elemento fundamental e, do ponto de vista do trabalho, ressaltando os modos como o trabalho provoca sensibilidades. A ideia de provocação indica formas de relações agonísticas, que geram efeitos e transformação, para além de dominação ou da submissão.

Do ponto de vista das sensibilidades, o trabalho mostra-se como potência inventiva para produção da vida e dos modos de viver por provocar, também, modos de sentir, de pensar e de refletir. A produção também provoca sensibilidades e, assim, os modos de fazer, de sentir e de viver estão conectados. Estas conexões, tramadas pelas próprias linhas de sensibilidade, também indicam a potência inventiva do trabalho e podem ser objetos de nossas análises. Vigostsky (citado em Zanella, & Maheirie, 2010, p.32) indica que “a arte recolhe da vida o seu material, mas produz acima deste material algo que ainda não está nas propriedades deste material”, ressaltando o efeito da arte na produção da vida.

Assim, por artes de trabalhar, podemos entender os modos como as sensibilidades se conectam para provocar modos de viver diversos, a partir da própria vida. As noções de transformação e de produção, tão importantes na história das análises do trabalho, podem dirigir-se às artes e às sensibilidades.

Com relação aos trabalhadores da saúde, por exemplo, observa-se que um certo descaso presente nas precárias condições de trabalho e as formas rígidas da gestão ligadas ao controle dos trabalhadores e aos efeitos punitivos da greve estavam presentes nas imagens, na medida em que as imagens traziam uma forma um tanto desanimadora de mostrar as atividades realizadas. Ainda que o momento fosse de transição, pois o setor estava mudando de espaço físico, chama atenção que as imagens utilizadas para mostrar o trabalho, mostravam desânimo e desencanto. As falas dos trabalhadores indicavam que fatores como a diversidade das relações de trabalho que compunham as equipes produziam efeitos de individualização nas experiências cotidianas, o que deixava o ambiente de trabalho mais “frio”, tal qual as cores mostradas nas imagens. Neste processo, podia-se ouvir pulsar de modo muito enfraquecido a potência inventiva do trabalho, na medida em que a rigidez da organização e a precariedade do ambiente de trabalho marcavam o descaso com o ambiente e com os próprios trabalhadores. Ainda assim, ao buscarmos um pequeno traço colorido nas imagens homogêneas, pudemos indicar outras visibilidades e outros pontos de vista do trabalho.

Do ponto de vista dos trabalhadores do SAJU-UFRGS, pode-se observar que o desafio da formação em um contexto interdisciplinar provoca efeitos de invenção nas práticas específicas do serviço, ligadas tanto aos atendimentos quanto aos modos de estudar e entender as lógicas disciplinares (no caso, do Direito e da Psicologia) implicadas nos seu cotidiano. A temática de gênero também pressiona para práticas inventivas, na medida em que desloca as lógicas disciplinares na direção de outros modos de trabalhar. A formação, em termos acadêmicos e profissionais, também produz efeitos de invenção na medida em que implica no desejo de aprender e de produzir.

Do ponto de vista dos trabalhadores desempregados e usuários da política de assistência social, observa-se um movimento que articula os trabalhadores das políticas de assistência social e os trabalhadores desempregados, ainda que este não tenha sido o foco de nossas análises. Este agenciamentos de trabalhos ligados pelo tema da autonomia, produzem deslocamentos em ambos os coletivos, na medida em que os trabalhadores das políticas de assistência necessitam refletir sobre a posição de “incapazes” em que estão colocados os usuários, de modo a desqualificarem a si mesmos e a suas trajetórias de vida. Da mesma forma, provoca deslocamentos nos trabalhadores desempregados, na medida em que podem visualizar suas trajetórias de vida e de trabalho como um processo de lutas e produções. O tema da autonomia é uma discussão importante no campo das políticas de assistência social, pois o objetivo da assistência é a autonomia do usuário, conforme os documentos que a definem. No entanto, o usuário desta política, na maioria das vezes, está em situações de grande vulnerabilidade sócio-econômica e, assim, com grande dificuldade de produzir autonomia. Estas problematizações macropolíticas, de forte impacto no campo da assistência social, tensionam enormemente as potências micropolíticas.

Estes estudos, ainda que de forma muito simplificada, também trabalharam com a temática da imagem como intervenção nos jogos de visibilidade-invisibilidade. Os modos de trabalhar a imagem e com a imagem também produziram efeitos de reflexão e de deslocamento. Estes efeitos, no entanto, necessitam aliar-se a outras estratégias de resistência e de transformação dos processos, organização e gestão do trabalho para ampliarem sua potência de invenção de modos de viver e de trabalhar.

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